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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Além do slogan


Existem alguns termos e expressões correntes no meio educacional que não querem dizer nada. Ou melhor, querem dizer aquilo que se quiser entender, a gosto de cada um. Têm apelo publicitário imediato, engendram simpatias, valem por um bom slogan e ocupam o lugar da reflexão, dispensam de pensar. Um exemplo? “Escola como espaço de acolhimento”. Ninguém é contra. Nem pode ser. Seria anátema. Mas o que quer dizer afinal? De uma singela proposta de relação mais informal entre professor e aluno ao liberou geral do “é proibido proibir”, é possível entender a expressão das mais variadas maneiras. Só não dá pra começar a partir dela qualquer discussão. Não se discute o indefinível.
O espaço “Coluna Livre” publica artigos de opinião produzidos por leitores do Portal Aprendiz. O texto “Além do Slogan” foi produzido por Cassiano José Pimentel, jornalista e consultor em comunicação para a gestão pública. Pimentel foi também colaborador da revista Educação e editor de conteúdo na Secretaria de Comunicação da Prefeitura de São Paulo.
Em escala muito maior, acontece o mesmo com uma expressão que está entranhada no dia a dia da educação brasileira e deverá estar ainda por muito tempo: “educação para a cidadania”. Sua importância é indiscutível. Claro: ela significa tudo, ou seja, não significa nada. É impossível colocá-la em discussão.
Educação para a cidadania pode ser, num contexto bem modesto, uma escola trabalhar junto aos adolescentes a importância do voto como instrumento de ação social. Indo mais além, pode ser o colégio abordar toda a gama de direitos e responsabilidades que passarão a fazer parte da vida do jovem na transição do ensino médio para o universitário.
Educação para a cidadania pode ser simplesmente estímulo ao voluntariado, ao engajamento, à participação em projetos filantrópicos. Pode ser a escola que, cotidianamente, dá tanto valor à autonomia dos alunos, à capacidade de ter iniciativa e tomar decisões, quanto à aquisição de conhecimentos previstos no programa das disciplinas. Pode ser o colégio que, atento aos temas em pauta na sociedade, propõe constantemente atividades multidisciplinares que tratam dessas questões: ora, a segurança no trânsito; ora, o consumo de álcool por menores de idade; ora, a onipresença das mídias na vida de todos, e assim sucessivamente.
Educação para a cidadania pode ser, a pretexto de formar estudantes politizados, o disfarce do proselitismo barato, da formação e arregimentação de futuros militantes. Pode ser a fachada bonita de uma educação excludente, que transmite à geração de hoje os ressentimentos políticos da de ontem.
Educação para a cidadania é uma expressão, enfim, elástica o bastante para assumir o aspecto que se lhe quiser emprestar. Serve aos mais variados propósitos, como os aqui apresentados, todos eles facilmente encontrados nos estabelecimentos de ensino brasileiros. Educação para a cidadania, como não quer dizer nada, não é garantia de nada também.
Entre as instituições nacionais que se gabam de promover a educação para a cidadania, é raro encontrar, no entanto, alguma que leve a sério de fato aquilo que bem resumiu Reuven Feuerstein, psicólogo romeno especialista em psicologia do desenvolvimento: “Você tem a necessidade de garantir a qualidade de vida ao seu próximo”. Eis aí, simples, mas rico em significados, livre de ideologizações limitantes e recortes circunstanciais, um pequeno documento-base de direitos e deveres, do velho e sempre atual ideal humano da solidariedade. Eis aí o fundamento de qualquer educação para a cidadania que pretenda valer mais do que um bom slogan.

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